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Helder Moutinho

Hélder Moutinho faz-nos esperar por cada novo disco. Em vinte anos de carreira, O Manual do Coração é apenas o quinto álbum, distando três anos do anterior 1987, aclamado justissimamente como um dos grandes discos do “novo fado” (seja lá isso o que for) e como um dos melhores trabalhos da música portuguesa de 2013. Antes, o fadista publicara Sete Fados e Alguns Cantos (1999), Luz de Lisboa (2004) e Que Fado é Este que Trago (2008). 

 

A verdade, contudo, é que esse é o tempo necessário para Hélder Moutinho burilar e trabalhar devidamente cada novo projecto, pelo meio dos seus múltiplos afazeres (como agente, empresário, editor, produtor, cantor, letrista…). E para garantir que cada novo disco não é, apenas, mais um.

 

Para O Manual do Coração, Hélder Moutinho renovou a cumplicidade que o liga a João Monge, um dos mais notados letristas portugueses. Monge escrevera quatro letras para 1987, correspondendo a uma das quatro “histórias” que aquele disco contava. “Nessa altura apercebi-me de que ele preferia escrever um disco inteiro, mais do que canções soltas,” explica o fadista. “E ele disse-me que, no momento em que eu quisesse, durante um ano não faria mais nada a não ser escrever para mim.”

 

Onde os anteriores discos de Hélder Moutinho tinham um lado narrativo muito forte, “contando uma história cada um, este conta uma série de histórias,” diz, “que fazem parte do coração, que têm a ver com as nossas emoções.” Os textos do Manual do Coração foram nascendo de longas conversas entre Moutinho e Monge, abordando episódios e histórias que lhes aconteceram, pessoalmente ou a amigos.

 

E desde o início que ficou definido que as melodias seriam todas originais. “Acordámos que assim que cada letra ficasse pronta, o Monge iria ver quem seria «a cara» desse texto, e depois convidá-lo-íamos para compor a música.” O primeiro convidado foi o açoriano Zeca Medeiros, seguindo-se-lhe Manuel Paulo Felgueiras, Vitorino, João Gil, Pedro da Silva Martins e Luís José Martins (Deolinda), Ricardo Parreira, Marco Oliveira, Carlos Barretto e Mário Laginha.

 

O Manual do Coração compõe-se maioritariamente de fados-canção, embora alguns temas respeitem a estrutura do fado tradicional. Como explica Hélder Moutinho, essa “fuga” à utilização e valorização das melodias do fado tradicional que tem norteado a sua carreira era importante neste disco. “Mesmo por defender o fado tradicional,” diz, “não fazia sentido para estas letras voltar a ir buscar fados tradicionais que já tivessem sido gravados muitas vezes. E acredito que alguns destes temas se vão tornar em novos fados tradicionais.”

 

A ideia de O Manual do Coração como uma “coleção de contos” vai estender-se à produção de palco – “com várias histórias à volta de um ponto de encontro que será a sala de espectáculos, que serão maioritariamente deste disco, mas poderão também vir dos anteriores”. E confirma a versatilidade de um artista de rara integridade – um cantor que só lança um novo álbum quando tem algo de novo para dizer. Hélder Moutinho pode fazer-nos esperar, mas ainda bem que o faz.